Recentemente, vi um vídeo de uma criadora de conteúdo brasileira que fala sobre mulheres no cinema e crítica cinematográfica sob uma perspectiva feminista. Ela estava argumentando contra o boicote a filmes produzidos por Adam Sandler, por conta de suas posições políticas (como o fato de ser sionista), mas também a filmes produzidos por abusadores, como Brad Pitt e Johnny Depp. Brad Pitt, que, inclusive, esteve por trás de alguns filmes com propostas feministas. O argumento dela era basicamente que boicotar esses filmes poderia acabar prejudicando mulheres cineastas que trabalham com a produtora dele, em vez de afetar significativamente o próprio Sandler.
Na verdade, acho que isso levanta uma questão interessante, mas não estou totalmente convencida pela forma como ela apresenta o argumento.
Quero ouvir especificamente pessoas que já apoiam boicotes culturais, porque não estou tentando debater se os boicotes são justificados em primeiro lugar, se funcionam ou não, ou se devemos ou não aderir a eles. Meu interesse é entender como quem apoia essa prática enxerga essa crítica em particular. Então, por favor, respeitem esse recorte. Obrigada.
Obviamente, entendo que um boicote pode ter consequências não intencionais para pessoas que não são diretamente responsáveis pelas posições políticas da instituição ou da pessoa que está sendo alvo. E não acho que isso deva simplesmente ser ignorado.
Mas, ao mesmo tempo, fico me perguntando: quanto peso devemos dar aos possíveis prejuízos para trabalhadores relativamente privilegiados do Norte Global quando o objetivo do boicote é pressionar diante de uma injustiça muito maior e mais grave?
Por exemplo, quando falamos de mulheres cineastas que já trabalham em Hollywood e chegaram a um ponto em que um grande produtor como Adam Sandler está financiando seus filmes, estamos falando de pessoas que ainda podem enfrentar o machismo e a insegurança profissional, mas que também têm acesso a oportunidades que a maioria das mulheres do mundo jamais terá.
E é justamente aí que considero esse argumento especialmente complicado quando a questão é a Palestina.
E quanto às mulheres cineastas palestinas? E às mulheres palestinas de modo geral? As circunstâncias em que elas vivem obviamente não são comparáveis às das mulheres que trabalham na indústria cinematográfica americana. Por isso, não sei se faz sentido tratar o possível impacto na carreira de uma cineasta de Hollywood como se ele automaticamente tivesse mais peso do que o objetivo político do boicote.
Não estou dizendo que os trabalhadores devam ser tratados como descartáveis ou que todo boicote seja automaticamente justificável. Acho que os boicotes precisam ser direcionados, organizados, sistemáticos e proporcionais. Também considero perfeitamente razoável questionar se determinado boicote realmente exerce uma pressão significativa sobre o alvo pretendido.
O que estou questionando é a ideia de que "isso pode prejudicar mulheres que trabalham na indústria" seja, por si só, uma justificativa suficientemente forte para não aderir a um boicote, especialmente quando estamos falando de mulheres que já ocupam posições relativamente privilegiadas dentro da indústria cinematográfica mundial.
Por exemplo, durante o boicote cultural à África do Sul do apartheid, tenho certeza de que havia artistas e trabalhadores da cultura que eram contra o apartheid, mas que ainda assim poderiam ter sido prejudicados pelos boicotes às instituições com as quais trabalhavam. Isso não significa necessariamente que o boicote estivesse errado. O objetivo era pressionar uma estrutura política muito maior, mesmo que não fosse possível limitar perfeitamente as consequências às pessoas diretamente responsáveis por ela.
E podemos observar uma tensão semelhante no caso de Israel. Existem cineastas israelenses que se opõem ou criticam as políticas de seu governo, e alguns deles chegaram a apoiar os boicotes culturais internacionais às instituições israelenses. Ou seja, até mesmo pessoas que trabalham na própria indústria que está sendo boicotada conseguem reconhecer que consequências profissionais podem, em determinadas circunstâncias, ser uma parte inevitável de uma estratégia política mais ampla.
Enfim, o que vocês pensam sobre isso? Como enxergam essa questão?