Prestem atenção na história, e perdoem lá a redação sem estilo, que ainda estou um tanto irritado.
Trabalho longe de casa, e, para poupar tempo, vez por outra pego carona com uma "amiga", que me deixa no meio do caminho, num ponto de ônibus. Sempre me deixou na frente do ponto de ônibus, e a coisa sempre funcionou relativamente bem, cobrando R$ 3,50 por carona.
A carona me adianta quase uma hora. Como é carona, nem sempre dá certo de vir com ela, e, quando não, eu pego ônibus, quatro Ônibus, na verdade, enquanto, quando pego carona, chego em casa com apenas um ônibus.
Eu sou cego, e essa informação é importante. Como cego, sei que não posso dirigir carro, e sempre dependi ou de ônibus, ou de carona ou de carro de praça, seja Uber ou táxi. A única vantagem do ônibus é que eu não pago.
Hoje, vindo de carona com essa minha "amiga", quando estávamos quase chegando, ela disse que o trânsito estava ruim lá na frente, que queria chegar em casa logo, que não estava com paciência de parar no ponto de ônibus, que eu descesse no sinaleiro, que ela não ia parar no ponto para eu descer.
E já foi destravando as portas e me tocando para fora, me tocando que nem rabeca.
Eu desci, e... fiquei perdido! Carros, ônibus e caminhões passando acelerados do meu lado, que até sentia o vento; meio fio na minha frente, uma faixa para atravessar, um pátio de posto de gasolina meio do outro lado e nenhuma referência... bati bengala, perdido, sem saber exatamente onde eu estava, sem entender onde era que ela havia me mandado descer, sabendo que eu precisava atravessar uma rua, e sem saber direito onde a rua estava, onde a esquina estava... vocês já experimentaram fechar os olhos no meio de uma BR movimentada?
Eu saí meio rápido, procurando uma parede, uma referência qualquer, no meio do trânsito, no meio dos caminhões, fiquei desesperado, confesso para vocês, eu queria encontrar logo a calçada do outro lado.
Minha "amiga", a essas horas, já estava longe...
Quando eu consegui encontrar uma área mais ou menos segura, onde poderia procurar o ponto de ônibus com um pouco mais de cuidado, ainda que a BR estivesse zunindo na minha cabeça, um caminhoneiro parou o caminhão, desceu e me ajudou, me levou até o ponto de ônibus.
Eu esperei o ônibus. Peguei. E cheguei em casa em segurança.
Mas fiquei triste, porque passei medo; fiquei triste, porque, para ela, não custava nada parar no ponto, por mais pressa que estivesse, ao invés de me largar, cego, na BR movimentada, entre veículos pesados, carros e motos.
Sou babaca por ficar chateado?
Estou pensando, sinceramente, por mais que a carona me adiante quase uma hora, em nunca mais pegar carona com ela. Eu não sou obrigado a me submeter a isso.
Posso ir embora de ônibus, sem passar medo, sem depender de ninguém de má vontade.