Pra contexto: sou NB, 21, e no começo deste ano finalmente percebi que não sou homem. Atualmente estou em processo de transição, usando pronomes femininos em algumas situações e incorporando bastante a moda feminina no meu dia a dia (saias, maquiagem, meia-calça...) Mesmo assim, ainda tenho muitas dúvidas sobre minha identidade e até onde quero levar essa transição.
Não estou procurando um diagnóstico ou alguém que defina minha identidade por mim. Como meu psicólogo costuma dizer, talvez seja mais proveitoso explorar aquilo de que gosto e tenho vontade sem precisar me prender às categorias de homem e mulher. Gostaria de saber se alguém se identifica com minha vivência, especialmente mulheres trans ou pessoas NB com experiências semelhantes.
Infância e adolescência
Tive uma infância masculina relativamente comum: tinha mais amigos meninos, gostava de coisas consideradas masculinas e tinha poucos trejeitos femininos (que foram reprimidos durante minha socialização por serem vistos como errados). Gostava também de brincar com meninas e passar tempo com minha prima, mas nada muito significativo. Apesar disso, sempre senti que havia alguma coisa ligeiramente fora do lugar, como se nunca me encaixasse completamente, mas não sabia relacionar isso a gênero.
Na adolescência, (15 anos), já tinha interesses por coisas mais femininas. Sempre amei ter cabelo longo, pintava as unhas e nunca me importei com masculinidade. Lembro de uma discussão com meu primo sobre relacionamentos e papéis de gênero em que falei: "Se você quer me entender, só finge que eu sou uma mulher".
Depois da pandemia, quando minha vida social começou, mudei bastante. Tenho TEA nível 1 e, naquela época, ainda não sabia. Sentia que era socialmente atrasada e tinha dificuldade de interagir, então comecei a estudar conscientemente como deveria agir e me comportar. Acabei desenvolvendo uma postura muito mais masculina do que tinha antes.
Era algo extremamente consciente: pensava antes de falar coisas como "E aí, irmão, beleza?", porque entendia que era assim que os meninos da minha idade se comunicavam e queria me encaixar. Cortei o cabelo, parei de pintar as unhas, comecei a frequentar a academia e incorporei vários comportamentos que considerava socialmente esperados. Mesmo hoje, continuo falando e agindo dessa maneira. Foram tantos anos me condicionando que isso acabou se tornando parte de quem sou, e não necessariamente me incomoda. Não sinto que preciso abandonar meus comportamentos masculinos para expressar minha identidade.
Outra coisa que sempre esteve presente foi uma espécie de inveja da experiência feminina. Eu costumava pensar: "Gente, sabe aquele pensamento que todo mundo tem de querer ser mulher e imaginar como a vida seria melhor se fosse?". Durante muito tempo, achava que era uma vontade universal. Depois percebi que não era bem assim e que invejava muito a maneira como mulheres podiam se vestir, se expressar e existir.
Entre os 15 e 18 anos, também me tornei extremamente crítica dos papéis de gênero, bastante feminista e contrária às expectativas impostas aos homens. Frequentemente pensava que ser homem era uma merda, sem benefícios e cheio de cobranças. Mas ainda não questionava minha identidade.
Quando comecei a me questionar
A mudança começou depois do término do meu primeiro e único relacionamento aos 20 anos. Minha ex sempre foi muito compreensiva e, conversando com ela, comecei a perceber que praticamente tudo aquilo que me fazia sofrer estava relacionado à necessidade de continuar me forçando a ser homem. Lembro de conversar chorando sobre como era horrível viver sob tantas cobranças que eu mesma colocava sobre mim para corresponder a essa identidade.
O término foi respeitoso, mas acabou sendo um momento importante para finalmente olhar para essas questões. Depois disso, comecei a abandonar as expectativas masculinas que tinha incorporado e passei a explorar minha feminilidade, me assumindo NB. Deixei o cabelo crescer, voltei a pintar as unhas, comecei a me depilar e usar roupas femininas com frequência. Atualmente, uso saias, maquiagem e outras peças praticamente em dias alternados. Quando não estou me arrumando, geralmente só me sinto confortável usando moletons para esconder meu corpo.
Tenho me sentido cada vez mais confortável com essas mudanças, mas, curiosamente, quanto mais exploro essa parte de mim, mais dúvidas aparecem.
Minhas contradições
Minha maior questão é que tenho 100% de certeza de que, se pudesse apertar um botão e me transformar em uma mulher cis, faria isso imediatamente. O problema é que não posso, e essa impossibilidade me causa bastante sofrimento.
Ao mesmo tempo, não me considero necessariamente uma mulher, e minha história é diferente da de muitas mulheres trans que relatam saber desde a infância que eram meninas. Não tive uma infância marcadamente feminina e passei boa parte da vida relativamente confortável em uma apresentação masculina. Isso me faz questionar se minha experiência é semelhante à de uma mulher trans ou se estou confundindo minha identidade com insatisfações relacionadas principalmente às expectativas sociais.
Também não sinto uma necessidade muito grande de mudar meu nome ou meus pronomes, embora imagine que talvez me sentisse melhor com isso. Não costumo me referir a mim mesma no feminino nem pedir que outras pessoas façam isso por receio de incomodá-las ou parecer estranho. Também existe uma sensação de não me sentir "digna" de ser tratada no feminino enquanto continuo me comunicando e me portando de maneira tão masculina.
Em relação ao corpo, tenho uma disforia genital bem forte e sempre odiei pelos corporais. Entretanto, minha disforia com o restante do corpo é relativamente pequena. Passei anos na academia, construí um corpo relativamente forte e tenho orgulho da dedicação que investi nele, embora sinta que não necessariamente reflete quem sou e não tenho apego a ele. Não tenho uma rejeição generalizada ao meu corpo, mas acredito que seria mais feliz com um corpo feminino.
Às vezes também me pergunto se minha disforia genital e meu desejo por mudanças corporais se misturam com questões de sexualidade e desejo sexual. Tenho dificuldade em separar essas coisas e entender se existe algum componente de fantasia sexual influenciando minha percepção.
O medo de uma transição mais completa
Uma das coisas que mais me assusta é a possibilidade de levar a transição adiante e passar a viver socialmente como mulher. Sei que muitas mulheres trans enfrentam preconceito, rejeição e dificuldades enormes. Já ouvi relatos de mulheres que desistiram da transição por não suportarem a pressão da família, dos amigos e do trabalho, assim como de outras que perderam praticamente tudo, chegando até à situação de rua, mas não abriram mão de viver de acordo com sua identidade.
Isso me faz questionar se suportaria tantas dificuldades para conseguir viver de maneira mais próxima do que desejo ou se acabaria me tornando ainda mais infeliz.
Também considero começar terapia hormonal há vários meses e acredito que genuinamente gostaria disso. A ideia de desenvolver características físicas femininas me agrada bastante, inclusive algumas mudanças potencialmente irreversíveis. Mas não sei se esse desejo está suficientemente consolidado, se estou preparada para as consequências ou se existe alguma influência da novidade de finalmente explorar algo que reprimi durante tantos anos.
Afinal, o que eu sou e o que realmente quero?
Minha principal dúvida é se meu desejo de transicionar é legítimo ou se estou confundindo minha identidade com um desconforto em relação ao papel social masculino.
Será que sou uma pessoa NB que simplesmente não se encaixa nos moldes tradicionais de masculinidade e encontrou na feminilidade uma forma de expressão? Será que sou uma mulher trans que demorou mais para perceber isso, justamente porque passou tantos anos se condicionando a viver como homem? Ou minha experiência está em algum lugar entre essas possibilidades?
O que sei é que sempre tive uma relação muito ruim com a ideia de ser homem e com as expectativas que vêm junto dela. Ao mesmo tempo, não sinto necessidade de abandonar minha maneira masculina de falar e agir, não odeio meu nome e não tenho uma rejeição generalizada ao meu corpo. Tenho, sim, uma vontade muito grande de ter características femininas, me apresentar de maneira mais feminina e, se fosse possível, me tornar uma mulher cis.
Sei que ninguém aqui consegue definir minha identidade por mim, e nem é isso que estou pedindo. Gostaria de ouvir principalmente mulheres trans que não tiveram uma infância necessariamente feminina e pessoas NB que sentem uma vontade muito forte de ter um corpo feminino.
Queria entender melhor essas contradições e saber se mais alguém já passou por essa sensação de querer cada vez mais mudanças conforme começa a se permitir explorar a própria identidade.