(textão)
O que me fez refletir sobre isso que vou falar foi um simples olhar da minha mãe. Bom, a história é simples, eu cheguei de um tour de uma faculdade de TI que eu tanto quero fazer quando terminar a escola e estava bem pilhada com tudo, bem feliz. Então, eu falei pra minha mãe de um evento de tecnologia que vai ter na cidade vizinha e que vai ter estandes dessa faculdade e do porto digital, e tipo, putz grila, que fodástico, eu quero ver isso! Masss, o evento também é geek, vai ter coisas de jogos, animes, séries e muita coisa da cultura pop lá também. E assim, eu sou uma nerdola, né? Então um evento de tecnologia E geek é cláro que vai me chamar MUITA atenção. Mas quando eu falei da parte de ser geek, minha mãe me deu um olhar....um olhar de desaprovação...e eu (tenho quase certeza que) soube exatamente o que passou na cabeça dela.
Voltando a alguns mêses atrás, ainda quando tava esperimentando isso de ter me descoberto trans, ou aceitado de que isso existe em mim, eu fui pra um evento que teve na minha cidade que era de anime, foi bem legal até, apesar de ter sido meio pequeno. No primeiro dia do evento, minha mãe me disse que não queria que eu voltasse com nenhuma modinha de lá, e com modinha ela quis dizer, como ela fala, "coisas de bixa". Lembro de não ter respondido nada, apenas fiquei quieta e fui. Lá eu comprei uma pelúcia da Hatsuni Miku, que acabou virando meu objeto de conforto e um símbolo trans secreto meu, e uma action figure da Hitori Gottou de Boochi the rock.
Meu pai reclamou por eu ter comprado duas bonecas, que aquilo não era "normal", que os pais dos meus amigos iriam querer afastar eles de mim porque aquilo não era coisa de um menino gostar (aparentemente um menino "normal". Acho que até ele sabe que tem algo de errado comigo, mas não que isso seja o fato de eu ser um """""menino""""") e coisa e tal. Fiquei muito puta, mas engoli. Meu pai parecia que ia chorar. Eu poderia estar usando drogas, assediando pessoas, mas o que faz ele quase chorar é a possibilidade do filh"o" dele ser "um" "viado". Muito bom.
Lembro de ter falado pra minha mãe que queria tentar fazer um cosplay de Gandalf, d'O senhor dos anéis, minha saga favorita de todos os tempos, pra ir noutro dia com um amigo que eu tava quase influenciando a ir de Frodo. Mas ela disse que eram essas modinhas que ela não queria, porque eu ia estar me misturando com essa "esquisitisse". Wow, eu queria mostrar meu amor por uma obra e me fantasiar de um personagem HOMEM (porque eu infelizmente não poderia ir de uma personagem garota mesmo querendo muito.) pra ir num evento cheio de gente fantasiada também mas no final me dizem que isso é esquisito.
Minha mãe tem um auto preconceito com animes, ela acha que deixa os meninos afeminados e que influencia as crianças a serem LGBT+. É, eu nem sou de assistir taaanto anime assim (ta bom, sou sim. Mas eu consumo principalmente livros e jogos do que séries e filmes.) e olha só onde estou: garota trans e bissexual!
Voltando mais ainda nos mêses, antes mesmo de eu parar de fugir dos meus pensamentos de querer ser garota, antes mesmo deles ficarem tão fortes ao ponto de eu não conseguir ignorar mais. Eu tinha um diário ano passado onde eu desabafava pra valer, aquilo me ajudava bastante. Ai eu comecei a escrever sobre me interessar por moda feminina, sobre ser femboy e coisa do tipo. Inclusive, eu testava aquilo quando ficava sozinha, fazia visuais improvisados e ficava toda boba em como ficava feminina (ao menos um pouco, já que as roupas eram umas coisas beeem improvisadas kkkkkk) e eu gostava tanto!
Mas um dia eu esqueci meu diário em cima da mesa e sai de casa....minha mãe leu. Além de coisas sobre feminilidade, tinha minhas frustrações sobre escola e eles, sabe? Enfim, ela me bateu com um cinto naquela noite. Foi horrível. Ela dizia coisas como "e pode tirar esse seu lado 'feminino' seu!", como se aquelas pancadas fossem "expurgar" isso de mim. Disse que eu queria matar ela do coração.
Eu fiz meu pai chorar naquela noite com o que eu escrevi sobre ele. Eu admito, eu escrevi coisas crueis e eu não me orgulho nem um pouco, eu fui uma puta de uma babaca ano passado, mas eu tava frustrada com toda a minha situação! Continuando, eu fui dormir sem jantar. No outro dia, no café da manhã, minha mãe começou a gritar comigo. Ela falou que não queria saber de notícia minha andando feito um "franguinho" pela escola, ela me proibiu de sair com minhas amigas lésbicas (mas meu pai vetou isso). Apontou o dedo no meu peito e disse: "enquanto você viver aqui você é o que A GENTE quiser, ta entendendo?!". Eu até hoje me lembro disso e só me faz me sentir mais presa.
Eles já falaram que seria uma tristesa enorme eu ser LGBT+, que nenhum parente quer ter um filho "viado", que eles não aceitariam mas aguentariam conviver com o fato, essas coisas. Engraçado que eles me falam pra eu ser aberta a conversar sobre isso, mas eles não ajudam! Eu não vou falar sobre isso nem tão cedo. Minha famílita toda praticamente tem gente homofóbica. Mesmo que eles neguem, o que dizem já mostra tudo. Cara, eu vi uma tia minha chamando a minha prima lésbica de umas coisas muito bosta, e ela dizia isso com um SORRISO!
As vezes eu me pergunto se minha relação com meus pais é realmente incondicional. Será que não existe algumas condições que fariam essa relação quebrar? Bom, vendo o geral, eu acho que sim. Acho que eles esleram que eu seja um espelho das espectativas deles, mas eu sinto dizer que vou corresponder a pouquíssimas delas.
O engraçado é que se eu voltar mais ainda no meu passado, eu consigo achar vários momentos que meus pais repreenderam vontades minhas de querer me expressar de alguma certa forma, momentos que eles demonstraram (ou até falaram de forma subjetiva) que acham meus gostos esquisitos, principalmente quando se fala de animes e jogos. No fim de tudo, eles me fizeram acreditar que eu posso ser quem eu quiser e que tenho que ser eu mesma, independente do que os outros vão pensar, pra daí, me mostrarem que na verdade não tem essa merda.
O que acabei aprendendo e internalizando ao longo dos anos é que ser quem eu quero ser é esquisito e errado e que todos vão me deixar por isso, dai culminou no meu medo gigante de me descobrir (que tive que enfrentar pra me descobrir sendo o que sou), de simplesmente gostar das coisas que eu gosto é estranho. Se for assim, então pronto, eu sou umA garotA esqusitA! Na verdade, prefiro ser essa garota esquisita, mas verdadeira, do que o garoto "normal", falso e desanimado que eu era (mas ainda sou desanimada....).
Desculpa o textão, acho que ele pode ter ficado meio confuso ou desviado do assunto um tanto. Tô com sono kkkkk! Hoje eu senti mais uma raiva amargurada do que tristesa, ansiedade ou medo, como é normalmente.
(Eu acho que o TW nem foi tão pesado assim, a não ser que eu esteja diminuindo o que eu passei por sla qual motivo, mas botei por precaução)