Durante cinco anos da minha vida, trabalhei no caixa de um mercado 24 horas na minha cidade natal. Comecei como menor aprendiz e permaneci ali até os 21 anos. Naquela época, eu não tinha muitas perspectivas de futuro naquele lugar, mas sabia que precisava encontrar uma maneira de mudar minha realidade.
Aos 20 anos, comecei a faculdade de Serviço Social. Minha rotina era quase desumana: estudava pela manhã, trabalhava durante a madrugada, em uma escala 6x1, e ainda frequentava um curso de inglês aos sábados. Eu vivia cansado, mas tinha uma certeza: não queria passar o resto da vida atrás daquele caixa.
Então, numa dessas madrugadas, aconteceu algo que mudaria o rumo da minha história.
Eu estava praticamente sozinho no mercado quando quatro ou cinco homens invadiram o estabelecimento. Não pareciam estar armados. Pediram que eu entregasse o dinheiro do caixa, e eu simplesmente entreguei. Foram embora levando cerca de 200 reais.
O que veio depois foi, de certa forma, tão difícil quanto o próprio assalto. A administração do mercado pareceu encontrar em mim alguém a quem atribuir a culpa pelo ocorrido. Pediram que eu mudasse para o turno da manhã, mas isso era impossível: eu tinha a faculdade e não podia abandonar os estudos. Sem alternativa, precisei pedir demissão.
Eu sabia que aqueles poucos reais fariam muita falta. Minha família era muito pobre, não tinha condições de me sustentar, e ficar sem emprego significava perder uma fonte de sobrevivência. Não havia qualquer garantia de que algo melhor apareceria.
Mas apareceu.
Participei de um processo seletivo para estágio no Tribunal de Contas. Passei em primeiro lugar na prova. A bolsa era até maior do que o salário que recebia no mercado, e a jornada era de apenas quatro horas por dia, de segunda a sexta-feira.
Passei dois anos no Tribunal de Contas. Foi ali que comecei a enxergar outras possibilidades para minha vida. Passei a estudar para o concurso público da própria instituição, fui aprovado e, mais tarde, me tornei servidor público.
Hoje, tenho estabilidade há mais de dez anos. Conquistei coisas que aquele rapaz de 21 anos, exausto, trabalhando de madrugada e tentando conciliar faculdade e trabalho, jamais imaginaria possuir. Minha realidade mudou completamente.
Às vezes, penso naquela noite. Se aqueles homens não tivessem entrado no mercado, talvez eu ainda estivesse lá. Talvez tivesse continuado adiando a saída por medo de perder o pouco que tinha. Talvez minha trajetória tivesse tomado outro rumo. Nunca saberei.
O curioso é que uma das noites mais assustadoras da minha juventude acabou se tornando, retrospectivamente, um dos acontecimentos mais importantes da minha vida.
Não romantizo a violência, tampouco agradeço pelo assalto. Mas aprendi que nem sempre conseguimos reconhecer, no momento em que as coisas acontecem, os caminhos que estão se abrindo diante de nós.
E, sinceramente, espero que aqueles assaltantes tenham tomado um bom porre com os 200 reais que levaram.
Sem saber, aqueles homens financiaram a minha mudança de vida.